quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sorriso

Sorriso
“Desde pequena que tenho um sonho, o sonho de representar. Subir ao palco, as luzes, o público, as palmas, coisas de arrepiar. Mas eu tinha um medo, um medo que só de imaginar tremia como varas verdes, o medo que todas as crianças têm, o medo de falar em público. Falava nas reuniões em família, como era habitual no primeiro domingo de cada mês. Era a minha família, mas quando se juntavam mais de vinte, não tirava os olhos do chão. Só de imaginar que tinha de falar para uma imensidão de gente, até nem comia. E a minha mãe dizia que ficava com febre.
Até que um dia, eu já com os meus 17 anos, a minha mãe adoeceu e implorou-me que fosse representar na próxima reunião. Deu-me o texto e disse que só tinha que ler. Pensava eu … “Meu Deus, que faço eu? A minha mãe pediu-me tanto! Não a posso desiludir logo agora.”
Finalmente, 6 de Agosto de 1998. Para mim, o pior dia da minha vida. Eu já nem tinha unhas. Avós, tios, primos iam chegando, até os dedos já roía. A ansiedade era tanta! Naquele momento estava a sofrer por antecipação por causa de um estúpido medo. Depois de jantar enfiei-me no meu quarto, até que alguém ouviu aquele sufoco, aquelo choro abafado, as lágrimas corriam pela cara abaixo, até ardiam.
Até que, a certa altura, o meu avô entrou no quarto e perguntou-me o que se passava. Sempre confiei no meu avô, era o meu melhor amigo. Quando lhe contei, ele começou-se a rir, e confessou-me que quando era mais novo também era assim. Apertou-me a mão e disse:
- Sabes como superei o meu medo, que ainda hoje permanece dentro de mim?
Antes de cada discurso bebia um copo com água e respirava bem fundo, e pedia aos meus pais para ficarem na primeira fila, para eu só olhar para eles e fingir que estava em casa a combinar as próximas férias (o meu avó só ria).
E assim foi! Bebi um copo com água, subi, cumprimentei, expliquei o motivo da ausência da minha mãe, comecei a falar e palmas. No final do discurso, recebi uma enorme salva de palmas. No final do discurso, recebi uma enorme salva de palmas, um piscar de olho e um enorme sorriso do meu avô. Um simples gesto que me valeu para a vida toda. Um gesto que vale mais que mil palavras.
Aquele sorriso verdadeiro, na hora certa…”